Vandrey Pereira relembra carreira e o descaso com a segurança pública no Rio de Janeiro

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O jornalista Vandrey Pereira, 42 anos, trabalhou por mais de uma década no Rio de Janeiro. Morando em Orlando, o repórter e apresentador de TV, contou em entrevista exclusiva à Facebrasil, como sua carreira foi marcada pelas questões sociais mais graves do Brasil, a violência, o tráfico de drogas e a corrupção.

Facebrasil: Você escolheu a televisão ou a televisão escolheu voce?
Vandrey: Definitivamente a TV se apaixonou por mim (risos). Decidi fazer jornalismo porque queria trabalhar em rádio. Fiz vários testes, virei locutor, mas esse namoro durou apenas 2 anos. Em 1998, fui convidado para um teste como repórter de televisão. Juro, eu não levava o menor jeito, mas me contrataram. Acho que era destino.

FBR: Então quer dizer que você não imaginava chegar onde chegou?
VP: Levei uns 5 anos para entender que o repórter de TV não é um narrador. Quando você fala de alguém, tem coisas que a imagem não mostra. Todo mundo tem uma história, um por quê? Devo essa lição a uma professora, uma jornalista maravilhosa chamada Elaine Tavares. Eu fico maluco para conhecer a verdade sobre as pessoas. Tento me mostrar ao máximo para que o meu entrevistado confie em mim e se entregue. Quando entendi esse segredo, comecei a fazer sucesso e as oportunidades apareceram.

FBR: Você é de Santa Catarina, um dos estados mais seguros do Brasil. Quando se mudou para o Rio de Janeiro, sentiu medo?
VP: Muito! Lembro que o Renato Ribeiro, diretor que me levou para a TV Globo, só revelou o plano dele quando eu já estava contratado. Acho que ele teve receio de que eu não aceitasse a proposta. Durante 2 anos, fui o único repórter a cobrir, exclusivamente, a Baixada Fluminense, uma das regiões mais violentas do Rio. E sabe o que aconteceu na véspera do meu primeiro dia de trabalho? A maior chacina da história, com 29 mortes. Tive vontade de desistir, mas graças a Deus, morei lá por 12 anos e nunca sofri um assalto sequer. Cobrir a violência me rendeu um prêmio do qual tenho imenso orgulho. Mas como cidadão, não há nada o que comemorar!

FBR: Você fez parte da equipe de jornalistas que recebeu um Emmy Awards, o Oscar da televisão, justamente por uma reportagem sobre a violência. A operação de pacificação das favelas do Rio de Janeiro, foi uma farsa?
VP: Como jornalista, vou te responder com fatos. Eu cobri esse projeto de pacificação desde o início. Na favela Cidade de Deus, que ficou famosa pelo filme, eu passei um mês inteiro fazendo reportagens. Era perigoso, mas a gente queria ver aquilo dar certo. Havia muita resistência dos traficantes de drogas, tiroteios, mas o que mais me chamava a atenção era que quase ninguém ia preso. Parecia que existia um acordo com os bandidos, do tipo, deixem a polícia trabalhar e nada vai acontecer. O resultado foi que o tráfico voltou com força.

FBR: A retomada do Complexo do Alemão é considerada a maior operação já montada pelas forças de segurança do Brasil. O que você lembra?
VP: Faz exatamente 7 anos que isso aconteceu. Em novembro de 2010, o Alemão foi invadido por policiais e militares, numa verdadeira operação de guerra com centenas de homens do Exército e da Marinha. Usei colete à prova de balas durante 8 horas. No final, eu mal conseguia ficar em pé. Foi um trabalho incrível e dolorido ao mesmo tempo. Mostrar soldados dentro de máquinas de guerra, enquanto a população se protegia dos tiros em barracos de madeira. Como jornalista, receber um Emmy Awards foi muito gratificante, pois nossa equipe se arriscou muito nessa cobertura. Triste foi ver, um ano e meio depois, o governo do Rio assumir sua incompetência. Os militares saíram e os bandidos voltaram.

FBR: Na sua opinião, onde está o grande problema do Rio de Janeiro?
VP: Ganância e corrupção são problemas mundiais. No Brasil, ganharam força com políticos que trabalham pela desinformação do eleitor. Mas eu acredito muito numa mudança que está por vir. Tenho orgulho da imprensa que não deixa a Lava Jato perder força. Sempre teremos chance de mudar nosso futuro, basta querer.

Revista Facebrasil – Edição 76 – 2017