Tristão, o mensageiro

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Tristão nasceu de uma ninhada de quatro gatinhos siameses, os primeiros filhotes do Francisco e da Zuzu.

Foi a minha primeira experiência com bebês e mamães e confesso que me apaixonei perdidamente. Nunca havia me envolvido com os animais de estimação que meus filhos tiveram durante a infância, e foram muitos. Para mim, eram como brinquedos sofisticados com os quais não houve nenhuma conexão mais profunda. Recebiam tratamento adequado e eram tratados com o distanciamento necessário.

A chegada daquela ninhada mudou para sempre a minha vida. Era como se eu tivesse despertado para uma realidade estranha e maravilhosa que, apesar de corriqueira e quase invisível para toda a população mundial, era a maior novidade do século para mim. Como era possível um milagre daquele quilate simplesmente acontecer serenamente sob os meus olhos atônitos e deslumbrados? Era como se eu estivesse recebendo um presente de valor inestimável. A delicadeza e a fragilidade daquelas criaturinhas escondiam uma força estupenda.

A força da vida que palpitava naqueles coraçõezinhos recém-nascidos, naquelas patinhas inquietas que buscavam o alimento nas tetinhas da mamãe com a segurança de experts. Aquilo me atingia com força. Mas o que me encantava e me emocionava era a perfeição.

Quem poderia ter criado tal obra de arte? Com que propósito? Muitas vezes, deitada no chão para estar mais próxima deles, fiquei horas admirando e absorvendo o amor que irradiava daquele ninho.

Minha família pensou que eu estivesse ficando maluca, tal a emoção que aqueles gatinhos me provocavam. Passei a considerar Deus muito mais sofisticado e perfeito, e a cada momento meu coração só tinha gratidão em relação a Ele por tanta beleza. Algo dentro de mim mudou e mudou radicalmente. Os animais passaram a ter um lugar de honra no meu coração e na minha vida. Entre os quatro havia um gatinho que, apesar de lindo e saudável, tinha um olhar tristonho. Era tão evidente a tristeza que o apelidamos de Tristão.

Todas as manhãs eu descia com o Francisco (o pai daqueles filhotinhos) para o jardim do prédio, para que ele brincasse na grama. Naquela manhã havia muitos passarinhos, e ele miava agitado. Da janela do meu quarto, no quarto andar, pendia uma toalha de banho que a empregada estendera para secar, contra todas as minhas recomendações.

Até hoje eu ouço o ruído do baque do corpinho dele no chão, bem na minha frente. Ouvindo o pai miar, ele subiu pela toalha e se atirou pela janela. Tristão morreu na hora, suas pupilas se dilataram assim que eu o levantei do chão, e a respiração cessou.

Foi de uma violência indescritível. Fiquei em choque. Chorei rios de desespero. Não conseguia entender a razão para tamanha violência. Passei a indagar incessantemente o motivo. Tinha que haver um porquê. Por quê, meu Deus? Por quê? E a resposta veio no meu coração.

Não sei explicar de que forma ela chegou, mas eu a recebi como se fosse um pacote de informação que clareou minha consciência como um raio, e eu entendi. “Você descobriu o quanto é sagrada a criação. Sinta a violência com que ela é tratada à sua volta.” Nunca mais comi carne. Tristão deu o seu recado, e sou grata a ele pelo seu sacrifício.

Izolda Nolli é advogada e presidente da Associação Protetora dos Animais (Abrigo Mãos de Assis), em Araxá (MG).

Revista Facebrasil – Edição 48 – 2015