Sexualidade: Isso é normal?

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Desde que comecei a escrever e estudar a sexualidade humana, essa frase fica zunindo nos meus ouvidos. Não importa o teor da dúvida ou da angústia dos e-mails que recebo, quase sempre os remetentes terminam do mesmo jeito…

“A gente transa uma vez por mês. Isso é normal?”

“Não consigo chegar ao orgasmo com penetração. Isso é normal?”

“Sou heterossexual, mas tenho vontade de beijar outras mulheres. Isso é normal?”

“Meu namorado vê pornografia na internet todos os dias. Isso é normal?”

“Choro quando estou gozando. Isso é normal?”

“Amo meu parceiro, embora não sinta mais tesão por ele. Isso é normal?”

“Adoro me masturbar. Isso é normal?”

Muitos de nós têm a dolorosa impressão de ser bastante incomum em relação ao sexo. O filósofo Alain de Botton diz que somos perseguidos por um misto de culpa, neurose, fobias e desejos perturbadores. Então, por medo do julgamento alheio, a gente costuma esconder e questionar detalhes da nossa vida íntima. O que as pessoas esperam, no fundo, é que eu diga: “Está tudo bem, você não é uma aberração”.

Às vezes, elas nem sequer estão incomodadas de verdade. Querem apenas saber se são iguais à maioria. A gente fica confortável ao se equiparar, ainda que ilusoriamente, ao vizinho, às amigas, àqueles com quem convivemos. Engraçado como, nesse aspecto, ninguém quer ser “o” diferente. Como se isso significasse pertencer à ala dos “malucos”. Por exemplo, quando respondo que 70% das mulheres não gozam com penetração, a sensação de alívio do outro lado tende a ser imediata. A leitora não quer saber COMO gozar com penetração, ela diz um “ufa” para si mesma e segue a vida.

O cara que adora se masturbar, a moça que chora ao gozar, a outra que admite desejo eventual por alguém do mesmo sexo e aquela cujo namorado curte pornografia não estão necessariamente insatisfeitos com um comportamento, buscando alternativas para mudar. O que mais lhes preocupa é a opinião dos outros. É descobrir se são considerados “normais” pela sociedade. Tanto que, em várias ocasiões, o papo encerra-se por aí. A mulher que transa mensalmente poderia ter dito que estava infeliz e pedir dicas de como aumentar a frequência sexual com o marido. Mas não foi isso que ela quis me perguntar.

Alguns dicionários descrevem a palavra normal como “algo que é comum”. Acontece que, nem sempre, uma coisa comum é boa. Quer ver? Falta de tesão pelo(a) parceiro(a) é absolutamente corriqueiro, normal, comum. Só pra ilustrar, 56% das brasileiras reclamam de baixa libido (segundo o PROSEX-USP). Alguém aí acha legal não ter vontade de transar com quem a gente ama? Pois é. Por outro lado, perceber que muitas desconhecidas se identificam com o seu drama traz um tremendo sossego para o coração, né? Talvez até encoraje a conversar com outras pessoas sobre o assunto. Eu não espero ser sexualmente normal. Eu quero, sim, me sentir sexualmente realizada.

Nathalia Ziemkiewicz é jornalista e autora do blog napimentaria.com.br. Aposta que informação pode ser mais transmissível que muita doença.

Revista Facebrasil – Edição 45 – 2014