Cris Cyborg

A história dos brasileiros no UFC é longa, vem desde a primeira edição, na época em que o Ultimate Fighting Championship era disputado sem divisão de peso, como um confronto de estilos. Criado em 1993 por Rorion Gracie, ainda era disputado no formato de torneio, com lutadores se enfrentando no formato de confrontos eliminatórios, até que os dois finalistas decidissem o melhor lutador do mundo.
E o primeiro vencedor foi Royce Gracie, irmão de Rorion e menor que todos os seus oponentes. Lutando de quimono, Royce finalizou, em uma só noite, o boxeador Art Jimmerson, o kickboxer Ken Shamrock e o holandês Gerard Gordeau, lutador de savate e caratê.
Nascia com Royce, ainda na era do vale-tudo, um histórico vitorioso de lutadores brasileiros. Ainda na época dos torneios sem pesos, Royce Gracie venceu mais duas vezes, Marco Ruas e Vitor Belfort venceram uma.
Depois, já no formato atual, o Brasil não só teve campeões, como também dominou por muito tempo, com Anderson Silva (peso médio) e José Aldo (peso pena). Além deles, Rodrigo “Minotauro” Nogueira (interino), Júnior “Cigano” dos Santos e Fabrício Werdum vestiram o cinturão de campeões dos pesados; Vitor Belfort, Lyoto Machida e Maurício “Shogun” Rua triunfaram entre os meio-pesados; Murilo Bustamante foi campeão dos médios; Rafael dos Anjos chegou ao topo entre os leves; e Renan Barão era o lutador a ser batido entre os galos.

Rorion Gracie

Entre as mulheres, Amanda Nunes é a campeã do peso galo, e Cris Cyborg, considerada por muitos como a melhor lutadora de todos os tempos, é a detentora do cinturão do peso pena.
Deixei as mulheres por último de propósito, mas não por desprezo ou preconceito. No momento em que o UFC chega a Orlando, dia 24 de fevereiro, as duas seguram os dois únicos títulos do Brasil no evento.
Mas o que tem acontecido com os atletas do Brasil que disputam o evento? Será que acabou o domínio?
Para Richard Monassa, faixa preta quinto grau de caratê e detentor de vários títulos internacionais na modalidade, o problema dos lutadores brasileiros está no abandono das raízes. Ele cita, inclusive, outro carateca como exemplo: “Fui da seleção brasileira com o Lyoto Machida, e ficamos entre os oito melhores do mundo no Japão. Quem entra naquele ringue não pode ser burro. Temos de pensar que o deslocamento e o tempo de golpe que nós, caratecas, temos os outros lutadores não vão ter nunca”.
Já Roberto Correa, o “Gordo”, faixa preta sexto grau de jiu-jítsu e ex-treinador de lutadores como Rafael dos Anjos e Renato “Babalu” Sobral, não vê queda de rendimento entre os brasileiros: “O que acho que está acontecendo é o crescimento de lutadores de outras nacionalidades. Não é de hoje que os brasileiros, americanos e até os canadenses, com o Georges Saint-Pierre, se destacam. Só que vemos muitos europeus se desenvolvendo e aparecendo bem. A gente pode não ter nenhum cinturão entre os homens, mas temos uns três que aparecem com boas chances de disputa ainda neste ano, como o Fabrício Werdum, o Ronaldo ‘Jacaré’ e o Rafael dos Anjos, que já tem essa chance prometida pelo Dana White (presidente do UFC). Além deles, o Demian Maia acabou de disputar o cinturão. O Demian perdeu, mas já vem há muito tempo como um dos melhores da categoria (quinto no ranking do peso meio-médio). Não vejo o Brasil em um mau momento, o que vejo é que as coisas estão mais equilibradas”.
O crescimento do MMA em outros países é considerado previsível por Gordo: “O Brasil criou o vale-tudo, que depois veio a se tornar o MMA. O UFC foi criado pelo Rorion Gracie. Então, era natural que você dominasse em algo que praticava há mais tempo. Hoje o esporte é praticado em todos os lugares, então é bem natural que eles cresçam mais que quem já está no topo”.

Amanda Nunes

Atualmente os Estados Unidos têm sete dos nove títulos entre os homens que lutam no UFC. As exceções são o neozelandês Robert Whittaker, campeão entre os pesos médios, e o falastrão irlandês Connor McGreggor, peso leve. O canadense Georges Saint-Pierre se tornou campeão dos médios ao nocautear o inglês Michael Bisping, mas abriu mão do título para cuidar da saúde, abrindo caminho para Whittaker. Aos 36 anos, Saint-Pierre sofre de colite ulcerosa, doença inflamatória que causa úlceras no intestino grosso, e ainda não tem previsão de retorno ao octógono.
Entre as mulheres, além das brasileiras Cris Cyborg e Amanda Nunes, as americanas Rose Namajunas (peso palha) e Nicco Montano (peso mosca) são as campeãs.
Vale ressaltar, ainda, que a única categoria sem brasileiros entre os cinco primeiros ranqueados, desafiantes em potencial ao título, é o peso mosca feminino.
É difícil dizer se voltaremos a dominar o UFC, mas certamente veremos que o brasileiro não foge à luta.