O reencontro

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Era um sábado luminoso de maio, e a feirinha semanal de adoções do Abrigo Mãos de Assis havia começado, exibindo nas gaiolas brancas gatinhos e cãezinhos resgatados das ruas. Estávamos com uma população considerável de vidinhas inocentes, cujo destino talvez se resolvesse ali mesmo.

Na véspera, ao abrir o portão do abrigo, nos deparamos com duas caixas de papelão repletas de criaturinhas aflitas. Essa cena é constante depois que a população descobriu que abandonar filhotes na nossa porta significava deixá-los sob os cuidados de quem respeita e ama os animais.

Além dos filhotes, chegam até nós animaizinhos perdidos que abrigamos na esperança de um dia poder devolvê-los aos seus lares.

Um desses era um poodle bem velhinho que encontramos vagando pelas ruas faminto e quase desidratado, coberto de feridas e carrapatos. Era branco e, pela idade avançada, já não tinha alguns dentinhos, a catarata tinha tomado seus olhos, e era surdo. Chamamos ele de “Vovô”. No abrigo, passava as noites chorando, e precisávamos amolecer a ração e completar com comida para que ele conseguisse se alimentar. Aquela situação nos deixava desesperadas, pois nada aliviava a dor que aquele velhinho sentia – saudades do seu lar, do amor e do carinho que perdera.

Essa aflição se estendeu por meses. Inconformadas com aquela situação, tomamos uma decisão muito difícil: a eutanásia, como medida de alívio para aquele sofrimento. Marcamos para uma quarta-feira o procedimento, mas a pessoa que o levaria ao veterinário não apareceu no dia combinado, e o Vovô seguiu vivendo sua agonia por mais alguns dias.

Naquele sábado fatídico, estávamos na feirinha atarefadas com muitos filhotes, quando se aproximou uma senhorinha com sua filha, que insistia em que ela escolhesse um pequenino. Vendo a cena, me aproximei e tentei convencê-la a abrigar uma vidinha daquelas. Porém, ela estava irredutível.

Contou-me, entre lágrimas, que desde que seu animalzinho se perdera nas ruas da cidade nunca mais quis outro, não se conformava, e seu coração ainda sangrava de dor por aquela tragédia. Perguntei e ela me disse que o tinha perdido havia oito meses, em um dia em que o portão de sua casa ficara aberto e ele escapulira.

Meu coração deu um salto, e à minha mente veio a imagem do Vovô. Calculei as datas, e elas batiam! Senti em um insight que aquela chorosa senhorinha poderia ser o amor que ele tanto buscava dia e noite no frio daquela baia, sozinho no abrigo.

Pedi então a elas que fossem comigo ao abrigo para vê-lo. Não deu outra. Era o poodle fujão que havia tanto tempo tinha partido! Nunca vi tanta emoção, tanto delas quanto do Vovô, que voltou para o seu ninho de amor, levando alegria ao coração daquela senhora.

Um ano se passou. Em uma tarde, eu passeava no parque com os meus cachorros quando uma senhora se aproximou, me chamando pelo nome. Confesso que não a reconheci. Muito tempo se passara desde aquele sábado tão feliz.

Ela se apresentou e me abraçou, agradecendo pela oportunidade de tê-lo tido ainda por um ano em sua companhia. E contou que o Vovô falecera havia poucos dias no colo dela, de forma tranquila e serena, rodeado de mimos e muito amor. O amor que uniu aqueles dois corações de forma tão poderosa conseguiu reuni-los, para que pudessem desfrutar de mais tempo juntos.

Izolda Nolli é advogada e presidente da Associação Protetora dos Animais (Abrigo Mãos de Assis), em Araxá (MG).

Revista Facebrasil – Edição 45 – 2014