O Consumismo nosso de cada dia

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Esses dias me lembrei de uma cena que presenciei em um ônibus de São Paulo. Passávamos em frente a uma loja de brinquedos quando uma menina gritou “eu quero ir naquela loja” e, depois de um olhar de “está bem” sem muita energia da mãe, a garota continuou em tom ainda mais alto e de ordem: “Agora”. Foi uma cena estarrecedora para mim: uma menina, por volta de seus 10 anos, tratando a mãe como uma escrava de seus desejos, certa de que estava apenas exigindo seus direitos.

Lembrei disso recentemente por causa do Dia das Crianças (comemorado em 12 de outubro no Brasil), quando as lojas estão cheias de propagandas, doces, brinquedos, tudo voltado para o público infantil – que fica de olhinhos brilhando para as vitrines. Nos Estados Unidos, diferentemente do que acontece no Brasil, não existe tal data e há regulamentações restringindo a propaganda para os pequenos. Por outro lado, não é nenhum segredo sobre o quanto o “American way of life” se consolida há tempos, e cada vez mais, baseado na liberdade não de expressão, mas de consumismo.

A grande necessidade de aceitação e pertencimento inerente ao ser humano, observável desde a mais tenra idade, não é segredo para nós, adultos. Mas essa necessidade se torna bastante perigosa quando seu entorno o faz crer que “você é o que você tem”. Trava-se então uma competição cruel e precoce com relação a brinquedos, roupas, viagens, etc. Mas algumas iniciativas interessante vêm surgindo nas terras tupiniquins, como as feiras de troca de brinquedos – algo inspirador e desafiador para crianças, pais e educadores. Com certeza nos Estados Unidos existem iniciativas interessantes também.

Quão difícil é para uma criança o ato de escolher, abrir mão de algo, ou aprender a dividir? Como ajudar os pequenos a fazer escolhas mais conscientes e sensatas diante das inúmeras e atraentes opções expostas nas prateleiras? Não quero passar a ideia de que sou contra o “comprar”, prover sua família do bom e do melhor. Só busco propor uma reavaliação de como anda a relação de cada um de nós com o consumismo desenfreado, e quais valores estão sendo passados para nossas crianças.

Bem, alguns especialistas dão sugestões de como ter um ambiente familiar mais saudável, como impor limites para televisão, internet, celular e videogame; fazer programas em família que não envolvam consumo; explicar que é mais importante “o que eu sou” do que “o que eu tenho”; estimular a alimentação saudável. Mas, sinceramente, não sou muito adepta de fórmulas. Acredito que cada um deve explorar estratégias que se adéquam melhor a sua família.

Meu ponto é: espero que muitos por aí estejam preocupados em garantir o lugar do lúdico na vida de cada criança. Que as pessoas estejam mostrando para elas a importância das relações humanas, da ética, do amor, muito mais do que as levando para comprar, consumir, saciar desejos que sempre serão substituídos por outro, e outro, e outro –numa busca de plenitude nunca alcançada. Assim, que sejamos capazes de dar amor, atenção e diversão para nossas crianças, mais do que coisas. Que sejamos plenos por consequência de relações respeitosas e ricas de trocas construtivas.

Taciana Vaz é formada em Letras e dá aulas de idiomas. Autora do blog namochiladataci.blogspot.com.br, gosta de ler e escrever sobre educação, viajar e trocar conhecimento mundo afora

Revista Facebrasil – Edição 45 – 2014