No fio da navalha do cancelamento social – por Marco Alevato

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Vivemos em uma época nova, até mesmo para quem é novo, onde princípios sociais estão se modificando com muita velocidade, deixando o ser comum tonto. São tantas as mudanças de entendimento – do que é certo ou do que é mais certo, porque o errado, agora é quase tudo. Percebo que vivemos em um paralelo bem fino das diferenças entre essas duas vertentes, como se estivéssemos em um abismo dos dois lados, um a esquerda e outro a direita. 

Tudo que falamos passa a ser motivo de divergência e tudo que ouvimos também, onde o único lugar seguro seria nossos pequenos universos móveis, uma hora o celular, outra o tablet. Universos que temos controle praticamente da passividade, pois, podemos de repente, simplesmente com o movimento de dedos, cancelar aquela conversa e, muitas vezes, cancelar o interlocutor.

 Assim vivemos hoje, com receio de ser cancelado. Por alguma ação ou mesmo por uma falta de ação, se não respondemos uma ligação ou se não prontamente respondemos uma mensagem no grupo da família ou de amigos, já é a razão para que os demais se sintam no caminho do cancelamento e, para não serem cancelados, cancelam você primeiro como se fosse um jogo de mesa, truco. Se tornando um ciclo de pavor. E o pior, com consequências graves nos adolescentes e nos adultos mais inseguros, criando verdadeira onda de depressão. 

As pessoas, por falta de relacionamentos, estão tentando se aprisionar em aplicativos de conversa. Me faz lembrar uma tia minha que adorava linha cruzada para fazer novas amizades. Na teoria dela, era um acaso divino. Na minha, uma insanidade. Ela morreu com 96 anos, acho que o errado era eu. 

Mas, seguindo nessa linha de raciocínio, as mídias sociais são um super e, quem sabe, o maior estudo social desse planeta. A televisão, que era passiva, agora tem as votações instantâneas, onde você pode ir mudando o destino do vilão como em um videogame. Mas, isso é um videogame. 

Trazendo a televisão para nossa conversa. A demissão de um apresentador com 32 anos à frente de um programa, sem direito a despedida, dividiu a comunidade: os que assistem a emissora e os demais que somente se referem a mesma com palavras ofensivas, em mais uma tentativa de cancelamento. 

Aprendi que quando não gosto de algo, me afasto, não acompanho e vou tornando a existência daquele ser ou entidade nula em relação ao meu universo. No final das contas, somos somente espectadores de um monte de coisa sem noção, fazendo a marola para o barco das discórdias navegar por esse momento que vai ser difícil de explicar.

Pessoas adultas, perderam a capacidade de conversar. Seria por conta da criação do Big Brother em 1997 e no início dos anos 2000 no Brasil? Seria isso que estaria forjando esses novos seres estranhos?  Coincidentemente, esses anos foram o início da internet e dos microcomputadores. Seria uma coincidência ou a pandemia digital começou a matar a nossa sociedade antes mesmo da pandemia viral?

Na verdade, o que observamos é que o microcosmo e o macrocosmo social estão em conflito, se confundindo. Antes, você tinha um conflito com a vizinha, com a cunhada ou com o entregador. O problema começava e acabava na mesma velocidade e importância do fato. Agora, com as mídias sociais, temos um problema com a opinião de quem não conhecemos, que reflete nas relações da pessoa e nas nossas. E, por conta disso, a nossa cunhada, a nossa vizinha e o entregador nos cancela por algo que realmente não fizemos, apenas opinamos. 

Passamos e ultrapassamos as visões, até agora aceitas. Essa divisão sempre foi aceita pela filosofia, na antiga Mesopotâmia. Teremos que criar uma visão sobre esse comportamento pós internet. O plano de existência previsto nos ensinamentos religiosos e esotéricos, que nesses estudos evidencia a distinção entre os universos de uma forma dinâmica e evolutiva. O problema é que quando esses estudos se realizaram, não existia o advento da internet e das mídias sociais. A força da dinâmica desse processo complexo, de isolamento e morte social. 

A verdade do princípio da correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo”. 

Quem dá importância ao cancelamento é aquele que cancela.

Siga em frente!

Quando o mundo fecha a porta, o universo abre a janela.

Quando o mundo fecha as portas e as janelas, o universo derruba as paredes.

“Let, it go.”

Pense nisso, você consegue!

Marco Alevato / MBA – Publisher