Menos é mais – na revista Facebrasil 77

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Menos é mais

por Ilton Caldeira

Existe uma tese que afirma que cerca de 2% das pessoas no mundo são responsáveis pela criação e implantação das tendências de tudo o que os demais 98% da população irão consumir em praticamente todos os segmentos. São números que, quando analisados de forma mais fria, nos chamam atenção, pois realmente, na maioria das vezes, consumimos diariamente uma gama enorme de informação e produtos dos mais diversos quase automaticamente.

Claro que o consumo é a base ou uma parte muito importante da economia de muitas cidades e países. Gera renda e emprego para milhões de pessoas em todo o mundo. Menos do que já gerou em um passado não muito distante, antes da chegada das gigantes que controlam sites de comércio eletrônico. Mas, ainda assim, o consumo segue tendo sua importância, digamos, social.

Com a proximidade das comemorações de fim de ano, entre elas o Natal, período do ano em que o consumo de todos os tipos de produtos se eleva de forma exponencial, com ou sem crise, vale fazermos algumas reflexões. Existe uma linha de pensamento que define essa época do ano como o período em que as pessoas compram o que não precisam, com o dinheiro que não têm (via crédito), para tentar impressionar pessoas que ligam pouco ou nada para o que você tem ou está fazendo. Uma descrição típica de um comportamento insano, ou algo muito próximo disso, dependendo da análise.

Para tentar fugir desse apelo de consumo que nos bombardeia desde o momento em que abrimos os olhos todos os dias até a hora do sono, ganha corpo em vários lugares do mundo, incluindo os Estados Unidos e o Brasil, uma cultura do desapego com relação a bens materiais. Essa corrente defende que pessoas e os relacionamentos humanos estão em lugar de destaque na vida e que a posse de muitos bens limita uma existência com liberdade.

Esse tema é abordado no documentário “Minimalism: a documentary about the important things” (“Minimalismo: um documentário sobre as coisas que importam”), de 2015, que retrata a vida de pessoas que vivem apenas com o essencial. Na verdade, não se trata de uma competição sobre quem tem menos coisas. Mas é uma tentativa de busca por mais tempo, algo raro e quase um luxo nos dias atuais.

Longe de qualquer radicalismo, essa corren- te de pensamento cultiva, sim, o consumo, mas de forma mais consciente. As atuais ideias que guiam comportamentos menos consumistas são, na realidade, algo mais antigo do que muitos podem ser levados a acreditar. Esse conceito em si remonta aos estoicos e ao princípio das religiões. O estoicismo foi uma corrente filosófica da Antiga Grécia, surgido no século IV a.C., que definia a felicidade como o objetivo central da vida, sendo a felicidade um conceito relacionado a uma vida simples.

Apesar das grandes discrepâncias em rela- ção a poder aquisitivo, acumulamos coisas como roupas e sapatos, mas na verdade só usamos as mesmas peças, armazenamos mais comida do que o necessário, com prazo de validade relati- vamente curto, e grande parte acaba indo para o lixo. Esses exemplos que muitos de nós já viram mostram como a sociedade de consumo gerou gargalos que necessitam ser equacionados. Nes- se cenário, a ideia do menos é mais nunca foi tão necessária como nos tempos atuais.