Língua Portuguesa: Mais do Mesmo

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Quem nunca viu aquela placa “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.”? Não sei quanto a vocês, mas sempre que estou esperando o elevador fico com aquele olhar perdido de quem está viajando, pensando comigo: “Quem será ‘o mesmo’?”.

Talvez ele seja um espírito zombeteiro que perambule pelos elevadores do mundo. Então, a mensagem é um alerta para desavisados: “Se o mesmo estiver no elevador, tome cuidado, coisas tenebrosas poderão acontecer”. E será, então,que é essa entidade a responsável por fazer os elevadores pararem? Pois eu tenho certeza de que ela perambulava pelo prédio em que eu morava, porque sempre que eu abria a porta do elevador no térreo, a parte de dentrodele estava no poço. E eu verificava direitinho.

“O mesmo” também pode ser uma pessoa meio esquisita que habite ou trabalhe no prédio. Aquela que ninguém conhece e cujo rastro a gente vê fechando a porta do elevador enquanto corremos para alcançá-la com os braços cheios de compras do supermercado ou atrasados para a reunião em outro andar. Alguém, algum dia, conseguiu ver o sujeito parado no andar, gentilmente segurando a porta? Eu nunca vi “o mesmo”.

Bem, na verdade, eu sempre fico é pensando em quem escreveu a tal placa. O que será que essa pessoa tinha contra os pronomes? Sabe, aqueles que substituem o substantivo ou retomam os agentes da ação para evitar que um texto fique repetitivo? Então. Veja só: “Antes de entrar no elevador, verifique se ele está parado neste andar”. Simples assim: “ele” retoma o substantivo “elevador”; não precisa do mesmo e também não precisa encontrar-se.

Então, esse “o mesmo” da placa é um complicador descartável. Para validar o que estou dizendo, recorro a Evanildo Bechara, um conceituado estudioso da linguagem que entende a gramática como uma construção regulada pelo uso, portanto, em constante modificação. E ele diz que “mesmo” é um sinônimo de “próprio” e de “até”, ou um marcador de identidade. Então, “Eu mesma vi que o elevador estava no andar” ou “Mesmo uma pessoa distraída abriria a porta e olharia antes de entrar”.

Fiquei satisfeita com a explicação, mas ainda pensando na placa do elevador. Por via das dúvidas, quando ela estiver lá, impassível e mandona na porta do dito-cujo, vou entrar e dar bom-dia para “o mesmo” e dizer que seus dias como entidade estão contados, já que descobri para ele um substituto oficial: o pronome; ele mesmo!

Claudia Bergamini é linguista de formação e faladora por vocação. Mestra em Língua Portuguesa, acha esquisito falar “mestra” e “presidenta”.

Revista Facebrasil – Edição 45 – 2014