Leitura obrigatória da literatura marginal – na revista Facebrasil 63

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Por Cristian Fernandes

Marina Filizola nasceu em São Paulo, em 1981. De espírito irrequieto, atuou em diversos campos profissionais – de modelo a artista circense, de campeã de canoa havaiana a atriz de minissérie global.

Apresentou programas de TV, participou do reality show Hipertensão, na Globo, e encarnou a primeira personagem brasileira relacionada ao mundo da internet, a Internética, dos programas H e O Superpositivo, da Band. Nos últimos anos, decidiu enfrentar a montanha-russa das drogas com a literatura.

Sua obra de estreia é “Leite em pó – crônicas de um vício” (Editora Planeta), apresentada como ficção explosiva, baseada na experiência da autora no mundo das drogas.

Nesse livro de crônicas, o leitor vai se deparar com a prosa e a poesia ácida e sem filtro de Marina. Dependente química, a paulistana traz para as páginas impressas o delírio, a euforia e a loucura que as drogas lícitas e ilícitas imprimem no dia a dia de quem as consome. Seu papel de profissional, filha, irmã, tia e mãe é borrado, em alguns momentos, pelo efeito dessas substâncias.

Mas Marina não se intimida e coloca tudo pra fora. Como uma metralhadora – por vezes sem vírgula, sem ponto, sem rédeas –, ela cospe no papel sua verborragia aturdida e atormentada, intercalando o psicodélico e o cotidiano. É difícil detectar as fronteiras entre o real e a alucinação.

Apesar da dura realidade de quem luta contra a dependência química – incurável, mas tratável –, o senso de humor também faz parte, principalmente nos textos em que ela faz referência ao filho Logan (como em “Mãe-polvo” e “Aceita que dói menos”).

“Dezenove anos atrás, eu jamais poderia imaginar que um dia faria parte da gorda fatia de dependentes químicos da nossa sociedade”, escreveu Marina em um artigo da revista Trip.

E continua: “A dependência química é uma das doenças mais solitárias e tristes que existem. Os portadores de outras doenças progressivas e incuráveis têm, na maior parte das vezes, o auxílio, a solidariedade e o apoio de familiares e amigos. Mas quando o assunto é drogas, a sociedade ainda é bastante ignorante. Esse universo é sombrio e distante para muitas pessoas, até mesmo para aquelas estudadas que dizem ser solidárias, mas que, ao ver que a falência espiritual é muito mais profunda do que se pode imaginar, se assustam”.

Marina saiu de casa aos 17 anos, mas já fumava maconha na escola aos 14, na época do handebol, no recreio com os amiguinhos, e fez de tudo um pouco na vida, afundando-se cada vez mais em todo tipo de drogas pesadas que lhe foram apresentadas. Quando estava no auge de seu ofício de atriz e aparições no show business, viu de tudo. “A droga está em todo lugar. Nas festas, nas produções ou nas igrejas. Eu vi todo tipo de gente famosa se drogar pesado, mas não vou dizer os nomes.”

A realidade das drogas, pelo menos por um período, estava dentro de uma vida aparentemente funcional. Marina comenta que cresceu “uma menina ativa, atleta, ligada à arte da escrita, da interpretação, às artes circenses, à música brasileira. Sempre muito bem engajada socialmente. Comecei a trabalhar como modelo aos 14 anos e nunca mais parei. Participei de inúmeras campanhas de sucesso, propagandas, catálogos e desfiles. Sempre fui uma modelo muito bem cotada, sempre indicada para campanhas de esporte, muito reconhecida entre os produtores de cinema. Era um mercado fascinante e perigoso para um dependente químico, permeado de festas e flashes”.

Em tudo o que fazia na vida, Marina estava sempre rodeada pelas drogas. Foi atleta e passou anos competindo em diversos tipos de esporte. Além disso, foi trapezista aérea em circo, nessa busca constante de ir além dos limites. “A obsessão na minha vida mudava de foco de tempos em tempos, mas sempre estava presente em tudo o que eu fizesse”, comenta.

E se lembra de um episódio marcante dessa fase: “Minha mãe, uma vez, num campeonato de canoa havaiana em Santos, depois de eu ganhar o pódio em três categorias diferentes, ao me dar parabéns me disse: ‘E das drogas, quando você vai ganhar?’. Isso ficou marcado para sempre na minha memória. Me lembro como se fosse hoje. Eu nunca mais consegui parar de pensar nisso”.

Apesar disso, a situação continuou até ficar incontrolável. Marina começou a ficar cada vez mais isolada da família, passando inclusive noites e fins de semana em favelas. Teve dois princípios de overdose, uma tentativa frustrada de se suicidar, crises de alucinação. “É um desespero indescritível perder o controle sobre as próprias escolhas.”

O clique para deixar esse mundo veio com Chico, um inseparável golden retriever. “Foi um momento impactante quando Chico passou a não comer e vomitar. Ouvi de um veterinário que ele estava imitando o meu comportamento padrão”, lembra. Esse foi um dos motivos que a levaram a procurar ajuda.

Marina sabe que tem uma predisposição genética incurável, mas percebeu a tempo que tinha que se tratar. “Eu estava no isolamento total, virada havia 12 dias. Aí peguei meu carro, usei mais droga, larguei, peguei a bike e fui até o Narcóticos Anônimos. Hoje aquela toalhinha azul do N.A. (referindo-se a um símbolo do grupo) é a imagem da salvação pra mim”, conta, enchendo a boca pra dizer que está há três anos, cinco meses, dez dias e pouco mais de 24 horas “limpa” depois que começou a frequentar os N.A., jogando tudo para o alto em troca de sua sobrevivência.

“Eu só queria dizer que foi lá que salvei minha vida. Descobri uma nova forma de viver. E mudei meu destino para sempre”, conclui Marina.