Joselito Müller conta as desventuras de Fortunato

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Por Joselito Müller

Todos nós, numa boca só, advertimos Fortunato que o Departamento de Ciências Humanas da Federal era um antro de comunista.

Quando ele decidiu cursar Ciências Sociais, anos após terminar sua graduação em Direito e já estar consolidando sua carreira de advogado de porta de cadeia, a notícia de que ele havia sido aprovado no vestibular pegou todos de surpresa.

– Pra que diabos você vai inventar de cursar Ciências Sociais a esta altura do campeonato, Fortunato?

Ele respondia com aquele velho papo furado de que “o operador do Direito tem que conhecer os fenômenos sociais” e blá-blá-blá.

Dizia também que seria uma ótima oportunidade para conhecer pessoas e, claro, “se dar bem”com as mulheres. A preocupação dos amigos com seu intempestivo retorno à universidade se dava em razão dos acirrados ânimos da época.

O ano era 1969 e ninguém que acompanhasse os noticiários se sentia seguro em lugar algum.

O medo de militantes e militares era uma constante, pois era crença comum na época se estar na iminência de ser preso arbitrariamente ao ser confundindo com comunista, ou ser vítima de atentado terrorista cometido por opositores do regime.

Nas ruas, as tropas de soldados com suas fardas verde-oliva, os coturnos engraxados, baionetas caladas e capacetes, davam um certo ar belicoso ao tédio cotidiano.
Nos muros feneciam cartazes com fotografias de terroristas procurados pelos departamentos de segurança.

O fato, no entanto, é que os tiroteios noticiados em letras garrafais nos jornais só, excepcionalmente, eram presenciados por algum desafortunado civil, que em meio à guerra entre defensores e detratores do regime, ficava a mercê da correnteza dos fatos, que conduziria a todos para um futuro, até então incerto.

– Tu sabe, Fortunato, que não é bom ter aproximação com esse tipo de gente. Você tanto pode se tornar vítima deles, como pode ser confundido com um deles e acabar sendo preso por engano – disse certa vez um amigo.

– Vocês são muito paranoicos, Belizário! Você acredita demais nessas propagandas dos milicos, que ficam alardeando que tem comunista por aí, em todo lugar escondido. Relaxa, só vou voltar a estudar.

O tempo deu razão às advertências dos amigos, pois o próprio vestibulando tardio findou por admitir que havia identificado vários comunas entre os colegas de classe.

Confessou certa feita que em razão de um trabalho em grupo, acabou se aproximando de uma trotskista de vinte e poucos anos, para cima de quem estava arrastando as asinhas crendo até aquela data que havia recíproca de intenções.

– Quando você falar o que pensa sobre política essa menina nunca mais vai querer olhar na tua cara – disse Belizário aludindo ao fato de Fortunato ser simpatizando da ARENA.
– E você pensa que eu sou otário de querer assustar a menina? Rapaz, com aquela carinha de ninfeta, ela me converteu no mais radical dos marxistas-leninistas – disse Fortunato rindo.
– Tá de sacanagem que você falou que é comunista só pra poder transar com a moça?!
– Se você a conhecesse, certamente faria o mesmo. Não tem ideologia que resista àquele pé de rabo, meu irmão – respondeu o salafrário na cara dura.

Em razão do enlace que se anunciava, ou talvez, – mas é pouco provável – movido por um sincero interesse no conteúdo acadêmico do curso que frequentava, Fortunato não perdia um dia de aula, dedicando horas após o término das aulas a se reunir com colegas para estudar ou fazer sabe-se lá o que.

Aqueles que o conheciam o suficiente sabiam que um eventual envolvimento amoroso com a trotskista jamais o faria migrar para o campo ideológico da esquerda.

Era também de conhecimento dos amigos que ele era capaz de dissimular suas opiniões para cortejar uma mulher unicamente com o torpe propósito de comê-la, não tendo remorso em revelar sua verdadeira face assim que atingisse seu propósito.

Ninguém, no entanto, apostaria que Fortunato pudesse ir tão longe por causa de uma conquista, e quando sua foto foi estampada nos cartazes que anunciavam as identidades de terrorista procurados, nos demos conta que as coisas já estavam fora de controle.

Lembro que aquele terrível mal entendido levou alguns amigos a sentarem com o tio de um deles, que era delegado de polícia, para interceder em nome do agora procurado e, consequentemente, foragido Fortunado, mas os esforços foram em vão.

– Mas doutor, esse cara não tem nada a ver com os comunistas – cheguei a falar na referida oportunidade, recebendo como resposta a afirmação de que o serviço de inteligência “tinha sólidos fundamentos para afirmar o contrário”.

Os tais sólidos fundamentos, soubemos mais tarde, foi a delação de um estudante preso após uma passeata ocorrida no centro da cidade, que terminou em depredações e prisão de alguns manifestantes.

O custodiado, um tal de “Jaca”, mesmo antes de levar o primeiro tapa já foi logo anunciando que estava disposto a colaborar.

Protagonista de inflamados discursos contra o regime nas assembleias estudantis da universidade, ele era filho de um bem-sucedido empresário que, como não poderia deixar de ser, ficou deveras imputecido com a prisão do filho.

Tal personagem, calouro na faculdade de Letras, não tardou a se tornar simpatizante de tudo quanto era organização esquerdista, sem saber distinguir bem umas das outras.

Ainda não havia sido recrutado por nenhuma delas, pois muitos o tachavam como “pequeno burguês”, o que não o impediu de permanecer gravitando em torno delas.

Além da ingênua simpatia que passou a nutrir pelas agremiações, todos perceberam que ele havia ficado interessado na já falada trotskista que Fortunato havia planejado comer.

O iminente sucesso das investidas de seu oponente fez com que o garoto passasse a deixar clara sua hostilidade a ele, chegando a tentar suscitar suspeitas de que Fortunato poderia ser um agente do serviço de inteligência infiltrado.

– O cara já tem trinta e poucos anos e é calouro de Ciências Sociais. Muito estranho – costumava insinuar.

Pois ocorreu de, após sua prisão, que não demorou mais que algumas horas, entregar Fortunato como cabeça de não sei qual organização estudantil clandestina.

“Me livro do adversário e salvo minha pele”, pensou, obtendo êxito em seu plano.

Fortunato, por sua vez, não tardou a ser preso, vindo a ser solto dias depois, quando os agentes se convenceram de que ele nada tinha a ver com organizações esquerdistas.

Chegamos a nos reunir em um bar um dia após sua soltura, ocasião em que ele revelou ter decidido trancar sua matrícula e lamentou a injusta delação que motivara sua prisão.

– O pior é que, por causa dessa confusão, nem cheguei aos “finalmentes” com a trotskista – revelou entristecido o salafrário.

Revista Facebrasil – Edição 76 – 2017