A vingança silenciosa de Deodato

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Era sua penúltima semana de estágio no fórum central da comarca, e Deodato ainda não havia criado coragem de convidar Guadalupe para tomar uma cervejinha depois do expediente.

Como seu prazo era cada vez mais exíguo, deu a si mesmo o ultimato e jurou que a partir daquela segunda-feira, trabalharia com afinco para, na quinta ou sexta, finalmente levá-la para um happy-hou
Embora já houvesse há muito admitido para si, sem, no entanto, confessar a ninguém, a atração que sentia pela moça, vivia buscando álibis mentais para justificar sua inércia em se aproximar dela.

Dizia a si mesmo que não havia problema de sair com a moça, que era recepcionista vinculada à terceirizada que prestava serviços à repartição, ao mesmo tempo em que sobrevalorizava impedimentos para concretizar seu intento, tais como o fato de, na época, não ter um carro, nem um ordenado que o encorajasse às gastanças que, não raro, antecedem – ou são concomitantes – às conquistas.

Precavido, embora hesitante, Deodato economizou o que pôde nos três últimos meses, pois embora tivesse ciência de que a moça provavelmente era sabedora de sua condição financeira, não queria deixar evidente de quão fodido ele era.
“Já no ano que vem, quando começar a advogar, sairei desse aperto”, desabafou certa feita a um amigo.

Chegou resoluto no fórum naquela manhã, e ao ser recepcionado com o habitual sorriso de Guadalupe, anunciou que, mais tarde, tinha algo para dizer a ela.
– Diz agora – insistiu a moça.

– Não. Mais tarde eu digo – retrucou Deodato com voz meio trêmula, sabendo que a partir de então seu caminho era sem volta.

Guadalupe sorriu e Deodato tentou se focar no trabalho, passando a manhã diligentemente a juntar em autos processuais documentos outrora recebidos no protocolo.

Ao fazer uma pausa para ir ao banheiro, viu em seu celular uma mensagem enviada por Guadalupe:

– Vai me matar de curiosidade? Rsrsrs

E Deodato, conhecedor de sua própria índole, aproveitou o ensejo para livrar-se do medo de falar cara a cara aquilo que há dias estava a ensaiar, e respondeu, com os dedos trêmulos, com a seguinte mensagem:

– Vamos tomar uma cervejinha qualquer dia desses? – e colocou um emoji que mal traduzia sua cara de paspalho.

Deodato viu que Guadalupe visualizou a mensagem, mas não respondeu.

Nos dias que sucederam, durante os raros momentos em que se cruzaram na recepção, a moça sequer esboçou seu sorriso costumeiro e foi com um misto de tristeza e raiva que, na sexta-feira da semana seguinte, Deodato saiu do fórum sem se despedir dela, sabendo que da próxima vez que lá retornasse já não seria na condição de estagiário.

Teve a impressão de ouvi-la falar sobre um noivo ou algo do tipo em conversa com a senhora da copa naqueles dias, assunto sobre o qual jamais pôde se certificar, uma vez que a conversa cessou assim que elas o viram, interrompendo risos que sucederam a menção a seu nome, como revelou ter tido a impressão de ouvir.

Enquanto ia embora no final de seu último expediente como estagiário, imaginou que sua vingança contra a indiferença da recepcionista seria seu êxito profissional que acreditava iminente, do qual ela tomaria conhecimento mais cedo ou mais tarde, suscitando arrependimento por tê-lo desprezado.

Deodato já não mais se ocupava de pensar na moça, meses depois do acima narrado, quando foi a um Centro de Detenção Provisória tratar de um assunto com um cliente sob custódia e a viu na fila da visita íntima.
Ela, após não conseguir continuar fingindo que não o viu, deu um sorriso amarelo e falou, sem que ninguém perguntasse, que ia visitar seu noivo.

– Um cinco sete… – aludiu ao crime do sujeito e Deodato, observando que ela havia engordado consideráveis quilos desde a última vez que se viram, se envergonhou por um dia tê-la desejado.

Entrou para falar com seu cliente, mas não se demorou, pois quando saiu, Guadalupe ainda estava na fila para ser revistada, segurando uma marmita e uma sacola com roupas, chinelo e um maço de cigarro.

Deodato cruzou por ela sem se despedir e partiu. Dessa vez não sentiu tristeza nem raiva, e embora não tivesse motivos para tanto, passou o restante do dia com um atípico bom humor.


Todos os meses um novo conto de Joselito Müller aqui na revista brasileira mais lida pela comunidade brasileira da Florida.

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