Da provocação à agressão física, diferenças da rivalidade nos Estados Unidos e no Brasil

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Por Fernando Andrade

Qual o limite da rivalidade?

A pergunta é simples, mas, aparentemente, nós desconhecemos esse limite.

Esse ano, durante o Campeonato Brasileiro, o estádio de São Januário se transformou em uma praça de guerra, quando o Vasco, que sempre lutou pelo justo direito de sediar os clássicos em sua casa, perdeu para o Flamengo. Torcedores atiraram bombas e outros objetos no gramado e nos torcedores rivais. Na saída, mais confrontos, culminando com a morte de um torcedor vascaíno, baleado pela polícia.

Se estivéssemos tratando de um caso isolado, talvez não me alarmasse tanto, mas o problema é recorrente.

Na verdade, o problema é tão grave que levou Vasco e Flamengo, em ação conjunta, a desistirem de participar do campeonato estadual de basquete, mesmo com os times investindo em reforços para a temporada. A decisão foi tomada porque a Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou que não poderia garantir a segurança dos torcedores e as partidas deveriam ser disputadas com torcida única. Ou seja, somente vascaínos assistiriam os jogos em que o Vasco tivesse o mando de quadra, enquanto os rubro-negros seriam os únicos permitidos em jogos com o Flamengo como mandante.

E isso não se resume a Vasco e Flamengo. Temos casos corriqueiros de confrontos, agressões e mortes entre palmeirenses e corinthianos, cruzeirenses e atleticanos, gremistas e colorados. Parece que, no Brasil, não temos rivais, temos inimigos.

Aqui nos Estados Unidos, sempre tive a oportunidade de assistir meus times jogando, sempre como visitante. Vi os Lakers enfrentarem Orlando Magic, em Orlando, e Miami Heat, em Miami. E estava lá com a camisa dos Lakers.

Da mesma forma, assisti, várias vezes, os Yankees jogarem contra Tampa Bay Rays, em St. Petersburg, e Miami Marlins, em Miami. Sempre com camisa e boné dos Yankees.
Nunca tive problemas, mas sempre ouvi dos amigos brasileiros que não eram os principais rivais, por isso foi tão tranquilo.

Se o motivo da minha tranquilidade era a “falta de rivalidade”, resolvi testar. Fui a Boston e, uniformizado de Yankees, assisti o time derrotar a equipe da casa, Boston Red Sox, em pleno Fenway Park. Para quem não conhece tanto sobre o assunto, as duas equipes possuem a maior rivalidade dos esportes americanos, não só do beisebol.

Nos arredores do estádio, assim que cheguei, já pude ver muitos outros fãs dos Yankees. Eram famílias, casais, amigos e até torcedores solitários, que só queriam assistir um jogo de beisebol e apoiar seu time.

Do lado de dentro, como em todas as outras arenas americanas, nada de torcida separada. Tampouco, uma área destinada a quem quisesse sentar com a familiares e amigos que tivessem preferência por outro time. Aqui nos Estados Unidos, seja o jogo que for, todos sentam juntos.

É claro que a torcida de Boston era muito maior, por ser o time da casa. Da mesma forma, é claro que ouvimos provocações, como “the Yankees suck” (algo como “os Yankees são péssimos”) ou “f… the Yankees” (“f…-se os Yankees”). Mas ninguém, em momento algum, foi agressivo ou quis brigar, mesmo quando retribuímos as “gentilezas”, cantando “the Red Sox suck” ou “f… the Red Sox”.

No fim do jogo, conversando com um grupo de torcedores do Red Sox, explicando como um brasileiro poderia torcer pelos Yankees e gostar tanto de beisebol. Falei, ainda, sobre a rivalidade dos times brasileiros e o comentário de um deles resume o que penso: “eu posso te xingar, te provocar, já que estamos aqui para nos divertir e apoiar os nossos times, mas te agredir fisicamente!? Por que eu deveria te bater, se eu nem te conheço?”

Tomara que, um dia, eu possa frequentar São Januário, Maracanã, Engenhão, Ilha do Urubu ou qualquer outro estádio, com a camisa do Vasco, acompanhado familiares e amigos tricolores, botafoguenses e flamenguistas, sem a preocupação de alguém ser agredido ou ter que sentar em uma área reservada para isso, sem “zona mista”.
Ah! Antes que digam que eu não faria isso em uma partida de grande rivalidade nos Estados Unidos.

Assisti ainda a uma das maiores rivalidades do esporte mundial, Yankees contra Red Sox, ao lado da minha esposa, da minha mãe, da minha irmã e de amigos, todos com camisas dos times, sem qualquer risco.

Mais uma vez, eu pergunto: qual o limite da rivalidade? O limite é a zoação? Ou será que o limite é a agressão e, muitas vezes, a morte?

Revista Facebrasil – Edição 76 – 2017