“A litude” e os desafios de compreender e explorar a língua portuguesa

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Num dia qualquer, lá em casa: “Claudia, o que significa a litude?”

Quando você é formada em Letras, sempre que alguém não sabe o significado de uma palavra ou tem uma dúvida gramatical, recorre a você, mesmo que você não tenha tido tempo de decorar o dicionário e a gramática em meio aos seus afazeres da graduação.

“Não faço ideia. Escreve junto ou separado?”. E a resposta: “Acho que é separado, mas não tenho certeza”. Inicio uma busca ao dicionário: “litude”, considerando separado, sem o artigo; “alitude”, considerando junto, vai saber…

Nada.

Resolvo então buscar pistas sobre o contexto da enunciação: “Onde você ouviu essa palavra?”. E, com uma feição serena de dúvida, ela sinceramente afirma: “Naquela música do Skank: ‘A litude virgem, dois olhos de amêndoa’ (a cantoria continua)”.

Faço silêncio. Reflito se ela está tirando um barato da minha cara ou se haveria legitimidade na dúvida. Havia. Começo a rir sem parar: “É HÁLITO DE virgem! Hálito, sabe, de bafo?”.

Virou história de almoço de domingo, e, desde então, coleciono situações como essa. Teve outra familiar: “Adoro aquela música do Fábio Junior, sabe: ‘Carneirinho, alma gêmea, bate um coração’ (essa teve dancinha lenta)”. E eu, novamente após pausa para reflexão, emendo: “Carne e unha, alma gêmea, você quer dizer, né?”.

E para aqueles que já estão achando ser essa uma atrapalhação da minha família, informo que esbarrei em crônicas que narravam situações análogas.

Como a “Amor de Tumitinha”, do Mario Prata, que trouxe um alento complacente a minha angústia, quando expôs que um amigo dele achava que, no hino nacional, o “Seu Penhor (dessa igualdade) fosse o ranzinza antigazeteiro do nosso grupo escolar, em Lins”. No momento em que li os escritos de Prata, tornamo-nos (bonita essa ênclise!) três os cúmplices de uma língua que nos tirava as certezas de infância.

Sim, porque desde os quatro anos eu pegava a bomba de encher o pneu da bicicleta e dizia: “Agora eu vou cantar Numa folha qualquer”. Aquarela, do Toquinho.

E numa performance de extrema destreza na dança, eu entoava cheia de convicção: “Vou com ela viajando avaipequim ou istambor”.

Avaipequim era uma palavra só, cujo significado eu não fazia a mais remota ideia, mas como tocava essa música na propaganda de lápis de cor da Faber Castell, eu tinha uma desconfiança de que se tratava de um tipo de caneta. Meu pai tinha uma nanquim, essa era avaipequim. E istambor era uma espécie de tambor mesmo…

Para além das composições musicais ” quando os fonemas ganham outras melodias“, gosto de fazer o exercício de brincar com a sonoridade das palavras e pensar o que elas poderiam significar.

Algumas são verdadeiras onomatopeias, como pulular, por exemplo, que poderia tranquilamente representar o pulo de um coelho.

Outras apresentam significados que não correspondem ao seu formato, como ovacionar, que jamais deveria ser usada para representar um aplauso efusivo, mas sim uma vaia mal-educada, acompanhada do lançamento de ovos no discursador.

E corroborar, então? Nem preciso dizer o vexame que é corroborar nas calças. Como pode ser usado para ratificar algo?

Convido você a compartilhar comigo desse exercício e carregar de ludicidade algumas das palavras do próximo texto que você criar.

Pense na forma, invente significados.

Porque o mais gostoso no uso que fazemos da língua portuguesa é explorar seu potencial de expressão, o que envolve conhecer mais sua forma, conteúdo e sonoridades, para testar suas combinações harmoniosas.

Em tempos de discurso do ódio, quem sabe assim não se descubram por aí novos músicos e poetas que possam transformar palavras em arte?

Claudia Bergamini é linguista de formação e faladora por vocação. Mestra em Língua Portuguesa, acha esquisito falar “mestra” e “presidenta” e, por isso, fala.

Revista Facebrasil – Edição 50 – 2015
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