48% dos entrevistados em pesquisa acham que mulher não deve sair sozinha

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Da série “para, mundo, que eu quero descer”.

Uma pesquisa do Instituto Avon e do Data Popular com mais de 2.000 jovens entre 16 e 24 anos revelou que 96% dos entrevistados reconhecem que “vivemos em uma sociedade machista”.

Fiquei aliviada por saber disso.

Explico: ninguém evolui sem antes reconhecer suas falhas. E então, depois de ler outros dados, minha garganta secou feito a Cantareira. É tanto absurdo que resolvi setorizar e, depois, escolhi um recorte. Respira fundo, me dá a mão e vem.

68% dizem achar errado a mulher ir para a cama no primeiro encontro.
76% criticam aquelas que têm vários ficantes”.
43% dos garotos veem diferença entre mulheres para namorar” e “para ficar”.
33% delas foram impedidas de usar determinada roupa.
48% acham errado a mulher sair sozinha com os amigos, sem a companhia do marido, namorado ou “ficante”.
53% delas já tiveram o celular vasculhado.
40% dizem que o parceiro controla o que fazem, onde e com quem estão.
30% dizem que tiveram e-mail ou perfil de rede social invadido pelo namorado.

Estou há dez anos com o mesmo cara, hoje meu marido.

Nunca pedi sua senha de Facebook, e-mail ou celular. Seria como amarrá-lo ao pé da cama. Quero que ele fique, SE QUISER FICAR. Não é sorte minha que ele pense do mesmo jeito, é seleção natural.

Só sobrevive a mim aquele que respeita os limites da minha individualidade. Tatuei na memória a coisa mais linda que ele já me disse, durante a nossa cerimônia de casamento.

Eu te desejo LIVRE: que voltar pra mim seja sempre uma ESCOLHA, nunca uma OBRIGAÇÃO. Ela é mais do que uma frase. É a essência da nossa relação.

Eu sei, vão dizer que se trata de indiferença mútua e que a gente não se ama de verdade verdadeira. Respondo que ciúme não faz ninguém fiel a você. Enquanto a gente achar que ciúme é prova de amor, vamos perpetuar comportamentos patológicos e violentos como os que mostram essa pesquisa. Alguém realmente acredita que é natural PODAR o outro, PATRULHAR sua rotina e DITAR suas atitudes?

Não estou falando daquela sensação que cutuca nossa estabilidade quando ele reparou no mulherão da festa ou é cobiçado pelas colegas de trabalho. Até aí, tudo bem. Desde que, em vez de dar escândalo, você relembre o valor de quem está ao seu lado. E relembre que, entre tantas opções, vocês se escolheram. O resto é burrice. Explico: eu posso “exigir” que meu marido me dê a senha do e-mail AND ele cria outra conta só pra xavecar a gostosa da academia.

Nessa “estratégia de reduzir e vigiar espaços, o ciumento se volta contra si mesmo. Uma hora o próprio amor morre sufocado. Ou o cidadão que mal consegue respirar fica impelido a procurar novos ares. Quanto mais rígidas as regras, maior o desejo de corrompê-las.

Eu aposto que existem alternativas mais maduras de se relacionar. Mas precisa partir do princípio de que o outro, homem ou mulher, não é bicho pra ser subestimado, encoleirado e adestrado. É dotado de direitos e de personalidade, tem plena capacidade de DECIDIR e LIDAR com as consequências de suas decisões.

Nathalia Ziemkiewicz é jornalista e autora do blog napimentaria.com.br. Aposta que informação pode ser mais transmissível que muita doença.

Revista Facebrasil – Edição 49 – 2015
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